Caridade: coração da doutrina social da Igreja

 

 

 

A caridade é a chave de compreensão da doutrina social cristã, explica Dom Angelo Casile, diretor do Departamento nacional para os problemas sociais e o trabalho, da Conferência Episcopal Italiana.

Com um novo livro, La Carità al centro, (Tau editorial), Dom Casile ilustra as relações entre a prática da caridade e a doutrina social da Igreja. Ele concedeu esta entrevista a ZENIT.

– Por que um livro sobre a Doutrina Social da Igreja?

– Dom Casile: O sentido deste livro sobre a Doutrina Social da Igreja está num pensamento de Santo Agostinho. Alguns cristãos se lamentavam do momento histórico difícil que eles viviam, e Agostinho respondeu: “Vocês dizem: os tempos são maus; os tempos são pesados; os tempos são difíceis. Vivam bem e vocês mudarão os tempos” (Discurso 311, 8). Nós perguntamos: os tempos são maus ou os homens não estão à altura dos tempos? Eu tenho certeza de que se cada um de nós vivesse com a fidelidade e a valentia que nascem do Evangelho, o próprio testemunho de fé seria uma contribuição essencial para a mudança desse tempo difícil, cheio de cenários pouco confiáveis. Agora, a Doutrina Social da Igreja, que é simplesmente o Evangelho se encarnando na história de cada dia, conhecida, aprofundada e vivida, nos faz viver a bondade e a beleza da nossa fé todos os dias, e, assim, os tempos serão melhores. O texto, na primeira parte, tenta apresentar o caminho histórico da DSC, a partir da experiência viva de Jesus e da Igreja; na segunda parte, aprofunda alguns temas relevantes do anúncio cristão e da Doutrina Social da Igreja (pessoa, família, sociedade, trabalho); e na terceira parte, os percursos que combinam o Evangelho e a Doutrina Social da Igreja na sociedade.

– Conforme o seu livro, a história da caridade é a mesma da Doutrina Social da Igreja. O que isso quer dizer?

– Dom Casile: A caridade é o coração da fé cristã. Jesus, no fundo, recapitulou e cumpriu a Lei no mandamento do amor. Ele revelou, através do dom perfeito da sua própria vida, que salvar a vida é possível só quando nós a oferecemos, e que a verdadeira alegria está no dar-se. A caridade, então, não é uma simples ética do ser cristão, mas o único modo de concretizar na história e na sociedade essa fé que nós professamos. Este livro pretende, por isso, nos resumir a “história da caridade”, quer dizer, da Doutrina Social da Igreja, desde as suas raízes até os nossos dias. A encíclica Caritas in veritate, do papa Bento XVI, contém também afirmações precisas sobre a natureza da Doutrina Social da Igreja, definida como “’caritas in veritate in re sociali’, anúncio da verdade do amor de Cristo na sociedade. Essa doutrina é serviço da caridade, mas na verdade” (nº5). Significa que a Doutrina Social da Igreja é, antes de tudo, um “elemento essencial de evangelização […] É instrumento e fonte imprescindível para educar-se nela” (nº15), “está a serviço da verdade que liberta” para a “vida concreta sempre nova da sociedade dos homens e dos povos” (nº 9).

– O ponto mais polêmico da pastoral social tem a ver com a relação entre Doutrina e princípios não negociáveis. De que modo a defesa da vida, o apoio à família e a liberdade de educação têm a ver com a Doutrina Social?

– Dom Casile: Eu acho muito apropriadas as palavras de Dom Mariano Crociata, Secretário Geral da CEI, que escreveu o seguinte na apresentação da série “Teologia: fé, busca e vida”, da qual o texto faz parte: “A teologia não é um saber fechado em si mesmo, distante da história e dos temas concretos da vida, encastelado em fórmulas adaptadas só aos especialistas do setor. Pelo contrário, ela se fundamenta no dom da fé e se coloca, no interior da Igreja, a serviço da Igreja, como reflexão para favorecer o acolhimento na vida dos crentes e no seu contexto histórico e cultural”.

As palavras e as ações de Jesus, nos Evangelhos, constituem o paradigma da Doutrina Social da Igreja quando ela fala da sacralidade da pessoa, da sua natureza sociável e da relação da caridade e da verdade, da justiça e da paz, do valor e do significado do trabalho, da família e da vida, da economia e da política, da tutela da criação, do destino universal dos bens, do primado do reino de Deus a respeito de todas as realidades terrenas.
Sustentados pela graça do Evangelho e pelas reflexões da DSC, inclusive neste contexto de crise, não só econômica, nós salvamos o essencial e decidimos começar de Deus para renovar o homem através de um processo educativo profundo, que revele o homem para si mesmo. Através da Doutrina Social da Igreja, num laço fecundo de evangelização e de educação, a Igreja continua a obra do seu Mestre. Como afirma o cardeal Angelo Bagnasco, presidente da Conferência Episcopal Italiana, na Apresentação às Orientações Pastorais: “Anunciar a Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, significa levar a humanidade à plenitude, e, portanto, semear cultura e civilização. Não há nada, em nossa ação, que não tenha um importante valor educativo”.

A Caritas in veritate mostra a profunda unidade entre “a questão social” e “a questão antropológica”: “A questão social se tornou, radicalmente, uma questão antropológica” (nº75). A aparente contraposição entre as duas problemáticas se resolve a partir de outra questão, a “teológica”, ou seja, a primazia de Deus e do seu lugar no mundo. É o Evangelho que nos ajuda a encontrar a solução para a questão social, como já afirmava a Rerum novarum; que permite toda forma de desenvolvimento dos povos, como diz a Populorum Progressio; que garante à Igreja o direito de cidadania na sociedade, como explica a Centesimuns annus; que ajuda o homem a entender a si mesmo, chamar Deus de Pai e reconhecer em cada um dos homens o seu irmão, como deseja ardentemente a Caritas in veritate.

– Original e muito interessante é o capítulo que o senhor dedica ao trabalho, no qual explica a continuidade entre o trabalho de Deus e o trabalho do homem. Pode nos explicar este ponto de vista?

– Dom Casile: A Bíblia começa falando de Deus que trabalha e que cria o homem à sua imagem. Bento XVI nos recorda que: “O verdadeiro e único Deus é também o Criador. Deus trabalha; continua trabalhando em e sobre a história dos homens. Em Cristo, Ele entre como Pessoa no trabalho cansativo da história. ‘Meu Pai trabalha sempre e eu também’. O próprio Deus é o criador do mundo, e a criação não está ainda terminada” (Encontro com o mundo da cultura, Paris, 12 de setembro de 2008).
Através do trabalho, o homem realiza-se, já que o trabalho, para ser plenamente verdade, deve-nos falar mais além do homem e de sua dignidade, deve-nos falar também de Deus. De Deus que trabalha seis dias e no sétimo descansa, que celebra e se alegra, considerando bela a obra de suas mãos (Gn 2, 2); de Deus que se identificou, durante quase trinta anos de sua vida terrena, com o trabalho de carpinteiro de Nazaré (Mc 6,3); de Deus que redimiu o trabalho e chamou seus discípulos a segui-lo enquanto trabalhavam, convidando-os a se converter em pescadores de homens (Lc 5, 10); de Deus que “trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano” (Gaudium et spes, 22).

O trabalho é para todo homem uma vocação: a expressão, já usada pelo Papa Paulo VI na Populorum progressio, foi retomada por Bento XVI na forma “Todo trabalhador é um criador” (Caritas in Veritate, 41). É próprio da pessoa, por cujo bem a todo trabalhador é dada a oportunidade de dar sua própria contribuição, expressar a si mesmo, seu próprio talento, suas capacidades. É expressão da própria criatividade a imagem do Criador, de um Deus que “trabalha” na Criação e na Redenção.

– Seu livro conclui com a invocação de “viver a esperança como um dever cotidiano”. Como alimentar a esperança?

– Dom Casile: A escuta do Evangelho e a graça de poder vivê-lo a cada dia em nossas ocupações cotidianas, também no atual contexto de crise, faz florescer a esperança em nossos corações e nos permite viver na confiança em Deus. Jesus, falando dos últimos tempos (poderíamos definir como a “crise” do final do cosmos), descreve “sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra, as nações ficarão angustiadas. apavoradas com o bramido do mar e das ondas. As pessoas vão desmaiar de medo”. Depois, dirigindo-se aos discípulos, afirma: “Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima” (Lc 21, 25-28). Só Deus, perante um cenário apocalíptico, pode nos convidar a estar serenos, a estar confiantes. Seguindo sua Palavra, compreendemos como o Senhor está sempre conosco, e enquanto por um lado nos adverte: “separados de mim, nada podem fazer” (Jo 15, 5), por outro nos anima: “eu estarei sempre com vocês até o fim do mundo” (Mt 28, 20).

Na noite e na escuridão da atual situação, nosso dever de cristãos que vivem nas cidades dos homens é anunciar e viver o Evangelho da esperança e da confiança no Senhor, que não nos abandona nunca. Vivamos nosso compromisso cotidiano seguindo o estilo de nosso Mestre, que nos convida a aprender dele, “manso e humilde de coração” (Mt 10, 16). Somos conscientes de que – segundo as palavras de São João Crisóstomo – “sendo cordeiros, venceremos e, ainda que estejamos cercados de muitos lobos, conseguiremos superá-los”. Mas se nos convertermos em lobos, seremos derrotados, porque estaremos privados da ajuda do pastor. Ele não apascenta lobos, mas cordeiros. Por isso irá e te deixará sozinho, porque o impede de manifestar sua potência (homilia sobre o evangelho de Mateus 33, 1-2).

Que o Senhor Jesus nos ajude a todos, unidos como sua Igreja, a realizar sua obra: viver bem nossa fé todos os dias, para que os tempos sejam melhores e demos Deus ao mundo na caridade e na verdade.

Fonte: Zenit Org  

 

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