E quando o padre precisa de ajuda?

 
Outro dia, ao falar ao telefone com uma pessoa muito próxima a mim, meu coração sacerdotal ficou pensativo e me questionei sobre como tenho vivido minha vida e minha vocação. Ela dizia: “Acabei de sair da Santa Missa e parece que estou pior do que antes; o padre estava tão seco e frio, que não sei se encontrei Jesus naquela celebração não fosse a Eucaristia. E o pior, padre Luizinho, muitas pessoas da assembleia saíram da celebração deste jeito!”. O que dizer nessa hora a essa pessoa e sobre essa situação?

Quero falar primeiro aos meus irmãos sacerdotes, pois conheço de cadeira a causa de seus corações, mergulhamos muitas vezes no ativismo, e por cansaço ou por falta de falar com Deus ficamos frios em nossa experiência de fé. Usando as palavras do Papa Bento XVI no discurso de abertura do Ano Sacerdotal: “Porque ninguém se anuncia nem se leva a si mesmo, mas, dentro e através da própria humanidade, cada sacerdote deve estar bem consciente de levar Outro, o próprio Deus, ao mundo. Deus é a única riqueza que, de modo definitivo, os homens desejam encontrar num sacerdote”.

“De fato, todo sumo sacerdote é tomado do meio do povo e representa o povo nas suas relações com Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Ele sabe ter compaixão dos que estão na ignorância e no erro, porque ele mesmo está cercado de fraqueza. Por isso, deve oferecer, tanto em favor de si mesmo como do povo, sacrifícios pelo pecado. Ninguém deve atribuir-se esta honra, senão aquele que foi chamado por Deus, como Aarão” (cf. Hb 5,1-4).

Meus queridos sacerdotes, é claro que os Sacramentos não precisam “de mais ou menos” dignidade nossa para serem válidos, mesmo que eu e você estejamos em situação de pecado, frios, secos, o Sacramento é válido, pois é Cristo que age em nós. É Jesus quem celebra e preside a assembleia dos irmãos, mas em tudo isso Ele não dispensa a nossa humanidade, pelo contrário, quis o Seu Coração Divino continuar no nosso coração humano agindo pela salvação e santificação de Sua Igreja. E me faço a seguinte pergunta: o Sacramento é valido, mas é eficaz? Será que eu estou dando mais de mim e de minhas palavras do que do próprio Cristo?

O brilho do Sacramento “depende” de sua santidade sacerdotal. O sacerdócio é de Cristo e não nosso. Que tudo o que eu fizer para salvar o povo, não me condene; ser padre é estar com a sua alma em constante perigo. Somos chamados a viver essa união entre Deus e o humano, como Cristo, a ser sacerdotes-pontes: filhos de Deus e irmãos dos homens, a experimentar essa constante “tensão espiritual” entre a miséria de nossa realidade e a grandeza de nossa vocação e eleição. Nós estamos num processo de santificação, em constante processo de “tensão espiritual”. Seremos uma corda tencionada entre a grandeza daquilo a que somos chamados e a miséria daquilo que somos, e isso sempre desperta a nossa consciência. Nosso modelo é o coração sacerdotal de Jesus: “manso e humilde”. Veja o que li, nestes dias, no retiro dos padres Canção Nova do Cardeal Albert Vanhoye, S.J..

“[…] A Carta aos Hebreus nos ajuda a perceber que as duas qualidades do Coração de Jesus, “manso e humilde” (cf. Mt 11,29), correspondem às duas dimensões da mediação sacerdotal entre Deus e nós. O coração “manso e humilde” de Jesus é um Coração sacerdotal, o coração de nosso sumo-sacerdote, “mediador de uma nova aliança” (cf. Hb 9,15), estabelecida nos corações (cf. Hb 8,10; Jr. 31,33). As duas qualidades que o caracterizam correspondem às duas relações, com os homens e com Deus, necessárias para a mediação sacerdotal” (CONGRESSO TEOLÓGICO-PASTORAL – ROMA 2007; “O Coração sacerdotal de Cristo une-nos a Deus”).

O sacerdote é alguém que se entregou, como Cristo, para a salvação do seu povo. Nós temos que viver sacramentalmente, ou seja, aquilo a que o povo é chamado a viver pelo batismo: a entrega. Nós somos o Coração de Cristo à disposição de todos. O coração do padre precisa estar ligado ao de Jesus para ser esse sinal, precisa ser amigo de Deus para saber ser amigo dos homens.

Voltando a falar do texto do Cardeal Albert Vanhoye, as duas disposições do Coração sacerdotal de Cristo: um coração filial com Deus Pai e um coração fraterno com as pessoas humanas. O saudoso Papa João Paulo II afirmou, num pronunciamento, a sacerdotes em uma de suas viagens: “O primeiro dever de um padre é crer no seu próprio mistério”.

Muitas vezes, quando me encontro sem vida interior, ou seja, sem oração, por muitos motivos, falo mais “de” Deus do que “com” Deus. Então, nessas ocasiões, nas Celebrações Eucarísticas e na pregação da Palavra dou mais de mim do que de Cristo, Aquele a quem os fiéis vêm buscar quando recorrem ao sacerdote. Por essa razão, é indispensável, na nossa vida de sacerdotes, que privilegiemos a intimidade com o Coração sacerdotal de Nosso Senhor Jesus Cristo, assim como, a direção espiritual, amizades adequadas e maduras, o contínuo e consciente caminho de conversão. Para produzirmos em nós sinais de vida divina, pois ficamos numa “saia justa” quando temos de falar que padres e bispos precisam de conversão, de oração, alegria, força, equilíbrio, liberdade, desinteresse, discrição, verdade, pobreza, misericórdia, sentido de Igreja… “Precisamente em vista de favorecer esta tensão dos sacerdotes para a perfeição espiritual da qual, sobretudo, depende a eficácia do seu ministério, decidi proclamar um especial “ano sacerdotal”” (DISCURSO DO PAPA BENTO XVI, na abertura do Ano Sacerdotal, 16 de março de 2009).

Para os nossos queridos filhos espirituais, gostaria de falar sobre o objetivo do Ano Sacerdotal para os leigos: Todos nós somos chamados à santidade e os sacerdotes, como nos diz a Segunda Carta aos Coríntios 4,7: “Porém, temos este tesouro em vasos de barro, para que transpareça claramente que este poder extraordinário provém de Deus e não de nós”. Assim, meus queridos irmãos, vocês precisam olhar para nós e colaborar para que nós entendamos que somos esse mistério, com o seu amor por Jesus e pela Igreja, sendo amigos e verdadeiros conosco, servindo a Cristo e não a nós, buscando a santidade e nos tratando com respeito, deixando-nos claro que todos caminhamos para o mesmo lugar: o céu. E, principalmente, na oração, assumam um sacerdote e rezem por ele, ofereçam a Deus seus sacrifícios e orações para que ele [sacerdote] volte à tensão espiritual, ou seja, para sua santidade.

Oração pelos Sacerdotes:

<< Senhor Jesus, presente no Santíssimo Sacramento do Altar, que vos quisestes perpetuar entre nós por meio de vossos sacerdotes, fazei com que suas palavras sejam somente as vossas, que seus gestos sejam os vossos que sua vida seja o fiel reflexo da vossa.

Que eles sejam os homens que falem a Deus dos homens e falem aos homens de Deus. Que não tenham medo de servir, servindo a Igreja como ela quer ser servida.

Que sejam homens, testemunhas do eterno nosso tempo, caminhando pelas estradas da história com vosso mesmo passo e fazendo o bem a todos.

Que sejam fiéis aos seus compromissos, zelosos de sua vocação e de sua entrega, claros reflexos da própria identidade e que vivam com alegria o dom recebido.

Tudo isso vos peço pela intercessão de vossa Mãe Santíssima: ela que esteve presente em vossa vida, esteja sempre presente na vida dos vossos sacerdotes. Amém >>

Minha bênção fraterna.

Padre Luizinho – Comunidade Canção Nova

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Um Cardeal revela que a Madre Teresa de Calcutá salvou sua vocação sacerdotal

 
O Arcipreste da Basílica de São Pedro recordou como uma promessa que fez faz há 40 anos à Beata Madre Teresa de Calcutá preservou sua vocação ao sacerdócio. A religiosa havia ensinado a ele que sem a oração, a caridade não existe.

Cardeal Angelo Comastri
O Cardeal Angelo Comastri presidiu a celebração eucarística para comemorar o centenário do nascimento da beata na igreja de São Lourenço em Roma, ante uma centena de missionárias da caridade, mais de 20 sacerdotes, líderes do governo local e um numeroso número de fiéis.
 
 A missa foi concelebrada pelo Prefeito da Congregação para os Bispos, o Cardeal Marc Ouellet, quem leu uma mensagem do Papa ao início da Missa.

Em sua homilia, o Cardeal Comanstri recordou um encontro pessoal com a fundadora das Missionárias da Caridade quando ele era um jovem sacerdote.

Ele contou que havia dirigiu a ela uma carta depois de ser ordenado sacerdote e sua resposta “inesperada” foi surpreendente, porque estava escrita “em um papel muito pobre, em um envelope muito pobre”.

Tempo depois, o Cardeal Comastri foi buscá-la quando ela se encontrava de visita em Roma, para agradecer-lhe pela resposta. Quando se encontrou com ela, a Madre Teresa fez uma pergunta que o deixou “um pouco envergonhado”.

“Quantas horas ao dia você reza?”, perguntou-lhe.

Entre 1969 e 1970, recordou o purpurado, a Igreja estava em um tempo de “conflito”, por isso acreditando-se “próximo ao heroísmo”, o então Padre Comastri explicou à Madre Teresa que ele rezava a Missa diária, a Liturgia das Horas e e o Terço.

A Madre Teresa respondeu-lhe rotundamente: “Isso não é suficiente”. “O amor não pode ser vivido de forma minimalista”, disse-lhe, e pediu a ele que prometesse fazer meia hora de adoração diária.

“Eu o prometi”, disse o Cardeal Comastri, “e hoje posso dizer que isto salvou meu sacerdócio”.

Nessa ocasião, tratando de defender-se, disse-lhe à Madre Teresa que pensava que ela ia perguntar quanta caridade ele fazia. Mas, respondeu: “E você acha que se eu não rezasse seria capaz de amar os pobres? É Jesus que põe o amor em meu coração, quando rezo”.

Ao finalizar sua homilia, o Cardeal Comastri disse que “através desta pequena mulher… somos lembrados que a caridade é o apostolado da Igreja, e que a caridade só nasce se rezamos”.

A nossa oração: << Madre Teresa de Calcutá pedimos a sua intercessão por todos os Sacerdotes que estão em perigo. Amém >>
 

– SENHOR ENVIAI SANTOS OPERÁRIOS PARA A TUA MESSE !!!

 

  

                                    

Agostinho, um Bispo exemplar !

 

Queridos irmãos e irmãs!

Gostaria de voltar às meditações sobre os Padres da Igreja e falar hoje do maior Padre da Igreja latina, Santo Agostinho: homem de paixão e de fé, de grande inteligência e incansável solicitude pastoral, este grande santo e doutor da Igreja é muito conhecido, pelo menos de fama, também por quem ignora o cristianismo ou não tem familiaridade com ele, porque deixou uma marca muito profunda na vida cultural do Ocidente e de todo o mundo. Pelo seu singular relevo, Santo Agostinho teve uma influência vastíssima, e poder-se-ia afirmar, por um lado, que todas as estradas da literatura latina cristã levam a Hipona (hoje Annaba, à beira-mar da Argélia), o lugar onde era Bispo e, por outro, que desta cidade da África romana, da qual Agostinho foi Bispo de 395 até à morte em 430, se ramificam muitas outras estradas do cristianismo sucessivo e da própria cultura ocidental.

Raramente uma civilização encontrou um espírito tão grande, que soubesse acolher os seus valores e exaltar a sua intrínseca riqueza, inventando ideias e formas das quais se alimentariam as gerações vindouras, como ressaltou também Paulo VI: “Pode-se dizer que todo o pensamento da antiguidade conflui na sua obra e dela derivam correntes de pensamento que permeiam toda a tradição doutrinal dos séculos sucessivos” (AAS 62, 1970, p. 426). Além disso, Agostinho é o Padre da Igreja que deixou o maior número de obras. O seu biógrafo Possídio diz: parecia impossível que um homem pudesse escrever tantas coisas durante a vida. Falaremos destas diversas obras num próximo encontro. Hoje a nossa atenção concentra-se sobre a sua vida, que se reconstrói bem pelos escritos, e em particular pelas Confessiones, a extraordinária autobiografia espiritual, escrita em louvor a Deus, que é a sua obra mais famosa. E são precisamente as Confessiones agostinianas, com a sua atenção à interioridade e à psicologia, que constituem um modelo único na literatura ocidental, e não só, também não religiosa, até à modernidade. Esta atenção à vida espiritual, ao mistério do eu, ao mistério do Deus que se esconde no eu, é uma coisa extraordinária sem precedentes e permanece para sempre, por assim dizer, um “vértice” espiritual. Mas, falando da sua vida, Agostinho nasceu em Tagaste na Província de Numídia, na África romana a 13 de Novembro de 354, filho de Patrício, um pagão que depois se tornou catecúmeno, e de Mónica, cristã fervorosa. Esta mulher apaixonada, venerada como santa, exerceu sobre o filho uma grandíssima influência e educou-o na fé cristã.

Agostinho recebeu também o sal, como sinal de acolhimento no catecumenato. E permaneceu sempre fascinado pela figura de Jesus Cristo; aliás, ele diz que amou sempre Jesus, mas que se afastou cada vez mais da fé eclesial, da prática eclesial, como acontece hoje com muitos jovens. Agostinho tinha também um irmão, Navígio, e uma irmã, da qual não sabemos o nome e que, tendo ficado viúva, chefiou depois um mosteiro feminino. O jovem, de inteligência aguda, recebeu uma boa educação, mesmo se nem sempre foi um estudante exemplar. Contudo ele estudou bem a gramática, primeiro na sua cidade natal, depois em Madaura, e a partir de 370 rectórica em Cartago, capital da África romana: dominava perfeitamente a língua latina, mas não conseguiu dominar do mesmo modo o grego nem aprendeu o púnico, falado pelos seus conterrâneos. Precisamente em Cartago Agostinho leu pela primeira vez o Hortensius, um escrito de Cícero que depois se perdeu, o qual está na base do seu caminho rumo à conversão. De facto, o texto de Cícero despertou nele o amor pela sabedoria, como escreverá, já Bispo, nas Confessiones: “Aquele livro mudou verdadeiramente o meu modo de sentir”, a ponto que “de repente perdeu valor qualquer esperança vã e desejava com um incrível fervor do coração a imortalidade da sabedoria” (III, 4, 7).

Mas estando convencido de que sem Jesus não se pode dizer que se encontrou efectivamente a verdade, e dado que neste livro apaixonante lhe faltava aquele nome, logo após tê-lo lido começou a ler a Escritura, a Bíblia. Mas ficou desiludido. Não só porque o estilo latino da tradução da Sagrada Escritura era insuficiente, mas também porque o próprio conteúdo lhe pareceu insatisfatório. Nas narrações da Escritura sobre guerras e outras vicissitudes humanas não encontrava a altura da filosofia, o esplendor de busca da verdade que lhe é próprio. Contudo, não queria viver sem Deus e assim procurava uma religião que correspondesse ao seu desejo de verdade e também ao seu desejo de se aproximar de Jesus. Caiu assim na rede dos maniqueus, que se apresentavam como cristãos e prometiam uma religião totalmente racional. Afirmavam que o mundo está dividido em dois princípios: o bem e o mal. E assim se explicaria toda a complexidade da história humana. Agostinho apreciava também a moral dualista, porque implicava uma moral muito alta para os eleitos: e para quem, como ele, a ela aderia, era possível uma vida muito mais adequada à situação do tempo, sobretudo para um homem jovem. Portanto, tornou-se maniqueu, convencido naquele momento de ter encontrado a síntese entre racionalidade, busca da verdade e amor a Jesus Cristo. E teve também uma vantagem concreta para a sua vida: de facto, a adesão aos maniqueus abria perspectivas fáceis para fazer carreira. Aderir àquela religião que contava muitas personalidades influentes permitia-lhe prosseguir a relação estabelecida com uma mulher e continuar a sua carreira. Desta mulher teve um filho, Adeodato, por ele muito querido, muito inteligente, que estará depois presente na preparação para o baptismo junto do lago de Como, participando naqueles “Diálogos” que Santo Agostinho nos transmitiu. Infelizmente o jovem faleceu prematuramente. Professor de gramática aos vinte anos na sua cidade natal, regressou cedo a Cartago, onde foi um brilhante e celebrado mestre de rectórica.

Todavia, com o tempo, Agostinho começou a afastar-se da fé dos maniqueus, que o desiludiram precisamente sob o ponto de vista intelectual porque não esclareceram as suas dúvidas, e transferiu-se para Roma, e depois para Milão, onde na época residia a corte imperial e onde obtivera um lugar de prestígio graças ao interesse e às recomendações do prefeito de Roma, o pagão Símaco, hostil ao Bispo de Milão, Santo Ambrósio.

Em Milão Agostinho adquiriu o costume de ouvir inicialmente para enriquecer a sua bagagem rectórica as lindíssimas pregações do Bispo Ambrósio, que tinha sido representante do imperador para a Itália setentrional, e pela palavra do grande prelado milanês o rectórico africano sentiu-se fascinado; e não só pela sua rectórica, sobretudo o conteúdo atingiu cada vez mais o seu coração. O grande problema do Antigo Testamento, da falta de beleza rectórica, de elevação filosófica resolveu-se, nas pregações de santo Ambrósio, graças à interpretação tipológica do Antigo Testamento: Agostinho compreendeu que todo o Antigo Testamento é um caminho rumo a Jesus Cristo. Encontrou assim a chave para compreender a beleza, a profundidade também filosófica do Antigo Testamento e percebeu toda a unidade do mistério de Cristo na história e também a síntese entre filosofia, racionalidade e fé no Logos, em Cristo Verbo eterno que se fez carne.

Em breve tempo Agostinho deu-se conta de que a literatura alegórica da Escritura e a filosofia neoplatónica praticadas pelo Bispo de Milão lhe permitiam resolver as dificuldades intelectuais que, quando era jovem, na sua primeira abordagem aos textos bíblicos, lhe pareciam insuperáveis.

À dos escritos dos filósofos Agostinho fez seguir-se a leitura renovada da Escritura e sobretudo das Cartas paulinas. A conversão ao cristianismo, a 15 de Agosto de 386, colocou-se no ápice de um longo e atormentado percurso interior, do qual falaremos noutra catequese, e o africano transferiu-se para o campo a norte de Milão, nas proximidades do lago de Como com a mãe Mónica, o filho Adeodato e um pequeno grupo de amigos a fim de se preparar para o baptismo. Assim, aos trinta e dois anos, Agostinho foi baptizado por Ambrósio a 24 de Abril de 387, durante a vigília pascal, na Catedral de Milão.

Depois do baptismo, Agostinho decidiu regressar à África com os amigos, com a ideia de praticar uma vida comum, de tipo monástico, ao serviço de Deus. Mas em Óstia, à espera de partir, a mãe improvisamente adoeceu e pouco mais tarde faleceu, dilacerando o coração do filho. Regressando finalmente à pátria, o convertido estabeleceu-se em Hipona para ali fundar um mosteiro. Nesta cidade da beira-mar africana, apesar das suas resistências, foi ordenado presbítero em 391 e iniciou com alguns companheiros a vida monástica na qual pensava há tempos, dividindo os seus dias entre a oração, o estudo e a pregação. Ele desejava estar só ao serviço da verdade, não se sentia chamado à vida pastoral, mas depois compreendeu que a chamada de Deus era para ser pastor entre os outros, e oferecer assim o dom da verdade aos demais. Em Hipona, quatro anos mais tarde, em 395, foi consagrado Bispo. Continuando a aprofundar o estudo das Escrituras e dos textos da tradição cristã, Agostinho foi um Bispo exemplar no seu incansável compromisso pastoral: pregava várias vezes por semana aos seus fiéis, apoiava os pobres e os órfãos, cuidava da formação do clero e da organização de mosteiros femininos e masculinos.

Em pouco tempo o antigo rectórico afirmou-se como um dos representantes mais importantes do cristianismo daquele tempo: muito activo no governo da sua diocese com notáveis influências também civis nos mais de 35 anos de episcopado, o Bispo de Hipona exerceu grande influência na guia da Igreja católica da África romana e mais em geral no cristianismo do seu tempo, enfrentando tendências religiosas e heresias tenazes e desagregadoras como o maniqueísmo, o donatismo e o pelagianismo, que punham em perigo a fé cristã no Deus único e rico em misericórdia.

E a Deus se confiou Agostinho todos os dias, até ao extremo da sua vida: atingido por febre, quando havia três meses que Hipona estava assediada pelos vândalos invasores, o Bispo narra o amigo Possídio na Vita Augustini pediu para transcrever em letras grandes os salmos penitenciais “e fez pregar as folhas na parede, de modo que estando de cama durante a sua doença os podia ver e ler, e chorava ininterruptamente lágrimas quentes” (31, 2). Transcorreram assim os últimos dias da vida de Agostinho, que faleceu a 28 de Agosto de 430, quando ainda não tinha completado 76 anos. Dedicaremos os próximos encontros às suas obras, à sua mensagem e à sua vicissitude interior.
 

Papa Bento XVI

A nossa oração: <  Santo Agostinho, Rogai pelos  nossos Bispos.   >

 

Eucaristia, a proteção mais segura contra toda forma de clericalismo !

Assim respondeu Bento XVI à pergunta colocada pelo sacerdote japonês Atsushi Yamashita, em nome dos presbíteros da Ásia, durante a vigília de encerramento do Ano Sacerdotal realizada em 10 de junho passado em Roma:

“Sabemos que o clericalismo tem sido uma tentação para os sacerdotes ao longo dos séculos, e permanece hoje; por isso é tão importante encontrar a forma verdadeira de viver a Eucaristia, que não é fechar-se para o mundo, mas é precisamente uma abertura para as necessidades do mundo”, afirmou o Papa.

A questão, explicou, é “como viver a centralidade da Eucaristia sem se perder numa vida puramente cultual, alheia ao cotidiano das demais pessoas”.

Para viver adequadamente a Eucaristia, explicou Bento XVI, “devemos ter em mente que na Eucaristia se realiza o grande drama de Deus que sai de si mesmo”.

Neste sentido, a Eucaristia “deve ser considerada como entrar neste caminho de Deus”: o sacrifício consiste precisamente em sair de nós mesmos, em nos deixar atrair para a comunhão do único pão, do único Corpo, e assim ingressar na grande aventura do amor de Deus”.

“Viver a Eucaristia em seu sentido original, em sua verdadeira profundidade, é uma escola de vida, é a proteção mais segura contra toda forma de clericalismo”.

“A Eucaristia é, em si, um ato de amor, e nos obriga a esta realidade do amor pelos demais: que o sacrifício de Cristo é a comunhão de todos em seu Corpo. E, portanto, devemos aprender a Eucaristia, que é precisamente o contrário do clericalismo, do fechar-se em si mesmo”, acrescentou.

O Papa mencionou ou exemplo de Madre Teresa, de “um amor que abandona a si mesmo, que abandona todo tipo de clericalismo e de alienação em relação ao mundo, que vai até os mais marginalizados, os mais pobres, até as pessoas à beira da morte, e que se entrega totalmente ao amor pelos pobres, pelos marginalizados”.

“Sem a presença do amor de Deus que se doa, não seria possível realizar este apostolado, e não seria possível viver neste abandono de nós mesmos; apenas inserindo-se neste abandono de si em Deus, nesta aventura de Deus, nesta humildade de Deus, é que se poderia e se pode levar a cabo este grande ato de amor, esta abertura para todos”, concluiu o pontífice.

O Martírio de João Batista

 

<< São João Batista,  que mostrou a Cristo a seus discípulos como sendo o Cordeiro de Deus, e se apagou humildemente diante d’Ele. Rendeu o supremo testemunho à Verdade ao defender a divina instituição do casamento >>

 
Santo Agostinho de Hipona
 
 
« Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Vós estáveis dentro de mim, mas eu estava fora, e aí Vos procurava; com o meu espírito deformado, lan­çava-me sobre as coisas formosas que criastes. Estáveis comigo e eu não estava convosco. Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós. Chamastes, clamastes e rompestes a minha surdez. Brilhastes, resplandecestes e curastes a minha cegueira. Exalastes sobre mim o vosso perfume: aspirei-o profundamente, e agora suspiro por Vós. Saboreei-Vos, e tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me, e comecei a desejar ardentemente a vossa paz »