Carta à um sacerdote

 

Reverendo Padre,

Queria ter-vos podido responder mais cedo mas a regra do Carmelo não permite escrever nem receber cartas durante o tempo de advento, contudo a Nossa Reverenda Madre permitiu-me, por excepção, ler a vossa carta, porque compreendeu que precisáveis de ser particularmente ajudado pela oração.

Asseguro-vos, Reverendo Padre, que faço tudo o que depende de mim para vos alcançar as graças que vos são necessárias, essas graças ser-vos-ão certamente concedidas visto que Nosso Senhor nunca nos pede sacrifícios acima das nossas forças. É verdade que às vezes este Divino Salvador faz-nos sentir toda a amargura do Cálice que apresenta à nossa alma. Quando pede o sacrifício de tudo o que é mais querido neste mundo, é impossível, a não ser por uma graça muito especial, não exclamar como Ele no jardim da agonia: «Meu Pai, afasta de Mim este cálice… não se faça contudo a minha vontade mas a tua.»

É muito consolador pensar que Jesus, o Deus Forte, conheceu as nossas fraquezas, que tremeu à vista do cálice amargo, este cálice que outrora desejara tão ardentemente beber…

Um Santo disse: A maior honra que Deus pode fazer a uma alma, não é dar-lhe muito, é pedir-lhe muito! Jesus trata-vos pois como privilegiado. Quer que comeceis já a vossa missão e que pelo sofrimento salveis almas. Não foi sofrendo e morrendo que Ele próprio resgatou o mundo?… Sei que aspirais à felicidade de sacrificar a vossa vida pelo divino Mestre, mas o martírio do coração não é menos fecundo que o derramamento do sangue e desde agora este martírio é o vosso; tenho pois muita razão ao dizer que a vossa sorte é bela, é digna de um apóstolo de Cristo.

Reverendo Padre, vindes buscar consolações junto daquela que Jesus vos deu como Irmã e tendes direito a isso. Uma vez que a nossa Reverenda Madre me permite escrever-vos, queria corresponder à doce missão que me é confiada, mas sinto que o meio mais seguro para chegar aos meus objectivos, é rezar e sofrer…

Trabalhemos juntos na salvação das almas, só temos o único dia desta vida para as salvar e dar assim ao Senhor provas do nosso amor. O dia a seguir a este será a eternidade, então Jesus devolver-vos-á centuplicadas as alegrias tão doces e tão legítimas que lhe sacrificais, ele conhece a extensão do vosso sacrifício, sabe que o sofrimento daqueles que vos são queridos aumenta mais o vosso, mas também Ele sofreu martírio; para salvar as nossas almas deixou a sua Mãe, viu a Virgem Imaculada, de pé junto à cruz, com o coração trespassado por uma espada de dor, por isso espero que o nosso Divino Salvador consolará a vossa boa Mãe, e peço-lho instantemente. Ah! se o divino Mestre deixasse entrever àqueles que ides deixar por amor d’Ele, a glória que vos reserva, a multidão de almas que formarão o vosso cortejo no Céu, sentir-se-iam já recompensados do grande sacrifício que o vosso afastamento lhes vai causar.

Espero, Reverendo Padre, que queirais continuar a rezar por mim que não sou um anjo como pareceis acreditar, mas uma pobre carmelita muito imperfeita, mas que apesar da sua pobreza tem, como vós, o desejo de trabalhar para a glória de Deus.

Continuemos unidos pela oração e pelo sofrimento junto do presépio de Jesus.

A vossa indigna Irmãzinha

Teresa do Menino Jesus da Sta Face
Lisieux, 26 de Dezembro de 1896

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