O encontro com Deus no rosto do pobre

 

 
 
Na história da espiritualidade cristã, Madre Teresa mergulha na tradição dos grandes santos e místicos, entre os quais citamos João da Cruz, Teresa d’Ávila, Elisabeth da Trindade, Edith Stein. Passou pela noite escura da fé, essa experiência de amor perfeito na qual o Amado se esconde, aumenta no amante o desejo de possuí-lo e sempre mais se esconde. Noite escura, sim, mas noite plena de claridade, porque vivida entre o Senhor e sua amada.

Deus dela se escondeu, para que fosse visto apenas numa pessoa: a do pobre. Seus olhos estão sempre abertos, procuram, mas não encontram o Senhor, e sim os pobres deste mundo. E Madre Teresa estava sempre sorrindo, pois no rosto do pobre contempla seu Amado, o Senhor.

Recordando essa imensa figura apostólica em seu centenário de nascimento (1910-2010) citamos alguns textos que iluminam sua impressionante aventura cristã.

“Meu sorriso é um grande manto que cobre uma multidão de dores”, escreveu ao diretor espiritual.  O início de sua missão foi na “escuridão”, mediante as locuções interiores que teve no trem noturno que a conduzia a Darjeeling, em 10 de setembro de 1946. Todo o resto de sua existência – após aqueles seis meses de extraordinário confronto com Jesus – foi vivido por Teresa na completa escuridão espiritual, sem mais confortos espirituais, com a constante sensação de viver na distância e na ausência de Deus. É como se, desde o início, ela tivesse tido que experimentar não só a pobreza material e a impotência dos marginalizados, mas também sua trágica desolação.

Em janeiro de 1955, escrevia ao arcebispo Périer, de Calcutá: “Há em meu coração uma solidão tão profunda que não sei expressá-la”. Em dezembro do mesmo ano: “Tudo está gelado dentro de mim. É somente a fé cega que me transporta, porque, na verdade, para mim tudo é escuridão. Enquanto for do agrado do Senhor, eu não conto”. “Às vezes, a agonia da desolação é tão grande e, ao mesmo tempo, é tão profundo o desejo do Ausente, que a única oração que ainda consigo fazer é: “Sagrado Coração de Jesus, eu confio em ti. Saciarei a tua sede de almas” (março de 1956).

Em abril de 1957: “Quero sorrir até para Jesus, de forma a esconder também a ele, se possível, a dor e a escuridão de minha alma”. Em janeiro de 1958: “O desejo vivo de Deus é terrivelmente doloroso e, contudo, a escuridão se torna sempre maior. Que contradição há em minha alma! É tão grande a dor interior, que nada sinto por toda a publicidade e o falar do povo”.

Amou a Deus nos pobres e partilhou sua condição

Por apenas um mês seu sofrimento teve alívio: foi em outubro de 1958, quando se celebrava na Catedral de Calcutá a missa em sufrágio de Pio XII: naquela ocasião, Madre Teresa, sufocada pelo sofrimento espiritual, pediu a Jesus um sinal de sua presença: “então desapareceu aquela longa escuridão, aquele sentimento de perda, de solidão, daquela estranha e prolongada dor. Hoje a minha alma está cheia de amor, de alegria indizível, de uma ininterrupta união de amor”.

Mas, Jesus foi breve. Já em novembro escrevia que “Nosso Senhor pensou que era melhor para mim permanecer no túnel, e assim ele novamente se foi. Sou-lhe grata por aquele mês de amor que me concedeu”.

Sua pergunta era sempre a mesma: “Que proveito Deus tem comigo, enquanto vivo neste estado, sem fé, sem amor, sem nem mesmo um sentimento? Num outro dia houve um momento no qual quase rejeitei aceitar essa situação, e então tomei do Rosário e comecei a recitá-lo lentamente e com calma, sem nada meditar ou pensar. Assim passou aquele momento duro, mas a escuridão é verdadeiramente densa e a dor muito tormentosa. Em todo caso, aceito tudo o que ele me dá e dou-lhe tudo o que ele pega”.

Apesar dos sofrimentos e da escuridão espiritual, Madre Teresa sempre tinha clara consciência de que a fé era o verdadeiro farol de sua vida. Era freqüente interromper uma frase para dizer: “Olha o que Deus está fazendo”, e “Admira a grandeza de Deus”.

Madre Teresa  mostra a luz na escuridão: se o Cristo sem pecado, na Cruz, grita “Meu Deus, por que me abandonaste?”, também ela pode e deve compartilhar o mesmo sofrimento, ela que escreve “Quero amar Jesus como nunca foi amado por ninguém até agora”, ou “se me tornar uma santa, seguramente serei a santa da escuridão. Continuarei a estar ausente do Paraíso, para iluminar aqueles que na terra estão na escuridão. Quero sofrer por toda a eternidade, se for possível”.

Sozinha encontrará a resposta, ou uma das respostas possíveis: “Consegui amar a escuridão – pois agora creio que seja uma parte, uma parte mínima, da escuridão e do sofrimento de Jesus na terra… Hoje sinto de fato uma alegria profunda – que Jesus não pode sofrer mais além de sua agonia – mas que quer sofrê-la através de mim”.

O olhar e o sorriso de Madre Teresa: viveu buscando a Deus e sempre encontrando os pobres. Mas, em 5 de setembro de 1997, encontrou-se com seu Amado, para sempre. Seus lábios pronunciavam as últimas palavras: “Jesus, eu te quero bem; Jesus, confio em ti”.

Sua vida e santidade foram aprovadas pela Igreja quando, em 19 de outubro de 2003, apenas seis anos após a morte, foi declarada Bem-aventurada pelo papa João Paulo II, na Praça de São Pedro.

Pe. José Artulino Besen

 

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