A Perfeição do Bispo Segundo Santo Tomás de Aquino

 

 

 
 

Dom Maonel Pestana modelo de Pastor e exemplo de santidade, falecido recentemente

 

<<<  Estado de religião e o episcopado não têm a mesma natureza, por duas razões. – Primeiro, porque o estado episcopal preexige a perfeição da vida; o que o demonstra a interrogação feita pelo Senhor a Pedro, antes de lhe cometer o oficio pastoral, quando lhe perguntou se o amava mais que os outros. Ao passo que o estado de religião não preexige a perfeição, mas é uma via para a perfeição.   >>>                                                        
 
 Santo Tomás de Aquino  –  Suma Teológica: CLXXXV, I, IV
 
 
Tanto na ordem natural, quanto na ordem sobrenatural, é impossível ao ser humano obter a perfeição divina. Mesmo presenteado pela vivência habitual da graça em ter o gozo eterno na Glória de Deus, seremos sempre criaturas. Nosso Senhor em Mt 5, 48 assevera: ”Estote ergo vos perfecti, sicut Pater vester caelis perfectus est” – Sede, pois, vós perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste”. Impossível ao que é criado ser perfeito como é seu Criador, no entanto, Jesus Cristo nos exorta à perfeição do Pai celestial, no sentido de que, a Perfeição do Pai, seja modelo para o qual o cristão deve se aperfeiçoar sem sofrer os riscos da perdição eterna. Pelo Batismo somos inseridos na vida sobrenatural, e somos gravados indelevelmente na alma com o dever grave de renunciar ao pecado, renunciar a Satanás e professar com fé católica a doutrina dos apóstolos e seus sucessores, os Bispos.

Quando somos marcados com a obrigação de sermos imitadores da perfeição do Pai, Cristo deseja que sejamos dignos da suprema magnitude da graça em nós. Ressoa na boca de Cristo o chamado universal à santidade, que é mandamento porque vemos o imperativo das palavras do Senhor: – Sede, pois, vós perfeitos!

Convidados ao redil do Senhor num único rebanho de uma só Igreja, pelo influxo da graça, somos chamados ao labor dos seguidores de Cristo pela autoridade episcopal: ”Euntes ergo docete omnes gentes, baptizantes eos in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti” – Ide, pois, doutrinai todas as gentes, batizando-as em Nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo” (Mt 28, 19). Os apóstolos reunidos recebem de Cristo o dever, legado aos seus sucessores, de ensinar o que eles mesmos haviam aprendido. Os Bispos, então, têm como marca, a necessidade de serem os primeiros imitadores da perfeição divina, porque deles é o ofício de colaborar com o “apascentar das ovelhas” estritamente unidos ao Papa, quando Pedro recebeu a autoridade sobre toda a Igreja (Jo 21, 15 – 17).

Santo Tomás assevera que ” o estado episcopal preexige a perfeição da vida” (idem). Só aquele que está habituado ao estado da perfeição, pela imitação da perfeição divina, será digno do episcopado, da sucessão apostólica, da plenitude do Sacramento da Ordem, porque será ele quem guiará as ovelhas confiadas pelo Bom Pastor Jesus Cristo aos caminhos da perfeição dvina.

Por isso o Senhor não disse – Se és perfeito, vai, vende o que tens – mas – Se queres ser perfeito. E a razão dessa diferença é que, […]  “a perfeição activamente é própria ao bispo, como ao que aperfeiçoa; mas ao monge, só passivamente, como ao aperfeiçoado”. ( Santo Tomás de Aquino  – Suma Teológica: CLXXXV, I, IV)

Imitando a perfeição Divina, os Bispos serão aqueles que pelo vigor da vida apostólica, serão a luz que ilumina todas as gentes para que, todas as gentes sendo conduzidas pelos pastores, possam ver neles os sinais do perfeito, porque, pelos Bispos refletindo a perfeição divina do Pai, serão todas as gentes levados pela graça que neles brilha com toda magnitude, a presenciar o poder Vicário de Cristo. Aquele que guia deve ser perfeito, é exigida a perfeição, porque o imperfeito desaparecerá, é efêmero, não subsistirá, enquanto o que é perfeito se perpetuará na consumação dos séculos: ”Cum autem venerit, quod perfectum est, evacuabitur, quod ex parte est” – Mas quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito abolir-se-á (I Cor 13, 10).

A perfeição ao Bispo ativamente, ao religioso passivamente. No estado episcopal, a ação; ao religioso – e o Santo cita o exemplo monástico – a capacidade de sofrer influência da ação, a passividade. Um é o que aperfeiçoa, outro é aperfeiçoado. O Bispo aperfeiçoa funcionando como luz que ilumina a escuridão, senda a luz as virtudes, a escuridão os vícios. Por sua vez, o aperfeiçoado é o qual, busca a perfeição pelo pastoreio do Bispo, que na luz das virtudes dá testemunho do Pai, Perfeito em Si.

“Ora, é preciso ser perfeito quem deve conduzir os outros à perfeição; o que não se dá com quem deve ser conduzido à perfeição; Ora, é presunçoso quem se julga perfeito; mas não o é quem tende para a perfeição. – Segundo, porque quem entra para o estado de religião sujeita-se aos outros para ser guiado na vida espiritual, o que a todos é lícito. Por isso, diz Agostinho: – “É uma louvável ocupação e que não pode ser impedida a ninguém o estudo para conhecer a verdade”. ( Santo Tomás de Aquino –  suma Teológica: CLXXXV, I, IV)

Sendo qualquer dos fiéis batizados, pelo sacramento da ordem julgado pela vontade divina da Igreja, digno do episcopado, e recebido então o estado episcopal pela imposição das mãos, confrontado com o estado religioso, num, o Santo diz que guiará os demais à perfeição que é dele exigida, enquanto noutro, se conduzirá pelo Bispo na busca de Deus. Ambos são exigidos, mas só em um deles é necessária a preexistência da perfeição, porque mesmo tendo todo fiel a obrigação de cumprir o mandamento da perfeição que conduz para a santidade, só do Bispo que tem a dignidade apostólica de ser investido dos poderes Vicários do Senhor Jesus Cristo, é necessária que seja preexistente uma superioridade que escapa das coisas efêmeras.

”Mas quem ascende ao estado episcopal é elevado a uma situação em que deve dirigir os outros. E nessa preeminência ninguém deve por si mesmo tomá-Ia, segundo aquilo do Apóstolo: Nenhum usurpa para si esta honra senão o que é chamado por Deus”. ( Santo Tomás de Aquino  –   Suma Teológica: CLXXXV, I, IV).

Unidos ao Papa, os Bispos apascentam as ovelhas, porque uma vez elevados ao estado apostólico, rompem com tudo que se repete pelos vícios que são contrários às virtudes. O que é preeminente é pela disposição das coisas, tudo que é inexcedível. Ora, o excedível é aquilo que o ser humano pode renunciar, tais como o pecado mortal e o pecado venial. Os vícios então devem ser dispensados pelo cristão, porque não podem existir juntamente com a santidade e seu chamamento pela perfeição divina. Para a santidade é irrenunciável, logo, inexcedível, as virtudes; por isso, as virtudes são preeminentes, porque só aqueles que pela honra do chamamento divino recebem o episcopado, enquanto aqueles que por sua vez apoderam-se ilegitimamente do grau máximo do Sacramento da Ordem, não recebem o chamamento do Pai, pois só o sincero servo, que pela preeminência das virtudes, vive a perfeição divina, imitando-a com esforço e diligência do ascetismo, tem em si o reconhecimento divino: “Omnis namque pontifex ex hominibus assumptus pro homi nibus constituitur in his, quae sunt ad Deum, ut offerat dona et sacrificia pro peccatis; qui aeque condolere possit his, qui ignorant et errant, quoniam et ipse circumdatus est infirmitate et propter eam debet, quemadmodum et pro populo, ita etiam pro semetipso offerre pro peccatis. Nec quisquam sumit sibi illum honorem, sed qui vocatur a Deo – Em verdade, todo pontífice é escolhido entre os homens e constituído a favor dos homens como mediador nas coisas que dizem respeito a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Sabe compadecer-se dos que estão na ignorância e no erro, porque também ele está cercado de fraqueza. Por isso, ele deve oferecer sacrifícios tanto pelos próprios pecados, quanto pelos pecados do povo. Ninguém usurpa para si esta honra senão o que é chamado por Deus” (Heb 5, 1 – 4).

A Esposa de Cristo ensina: “ Pelo ministério ordenado, especialmente dos Bispos e dos Presbíteros [que estão unidos ao Bispo], a presença de Cristo como chefe da Igreja se torna visível no meio da comunidade dos fiéis. Segundo a bela expressão de Santo Inácio de Antioquia, o Bispo é “typos tou Patros” como a imagem viva de Deus Pai”. (CIC nº 1549 – acréscimos meus).

“Superaedificati super fundamentum apostolorum – Edificados sobre o alicerce dos Apóstolos” (Ef 2, 20). A Igreja é a fé dos Apóstolos e Cristo o Seu Senhor, o Bispo adere ao Cristo e n’Ele crê porque Ele é a plenitude. “Cristo é a origem de todo sacerdócio” ( Santo Tomás de Aquino  -Suma Teológica: III, XXII, IV), o poder sacerdotal que está presente plenamente nos Bispos refere-se inteiramente ao sacerdócio de Cristo, por isso, Só aquele que ama a Deus mais que os outros, será por Deus através da Igreja, escolhido ao episcopado, pois foi por isso, que a Pedro, foi dado a primazia apostólica: ”Simon Ioannis, diligis me plus his? – Simão, filho de João, amas-Me tu mais que estes?” (Jo 21, 15). A ordem episcopal é marcada pela perfeição, pelo sacerdócio régio de Cristo, pelo mandamento de ser perfeito, e na guia do fiéis exalar a santidade do Pai, para sem temor dizer: – Sou perfeito na imitação do Pai, porque o Pai que está no céu é Perfeito.

Carlos Eduardo Maculan
© Copyright Sociedade Católica

 

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