A paternidade do Sacerdote

 

 

Quando Cristo começa a falar aos discípulos sobre o celibato por causa do Reino dos céus, eles acham isso difícil de entender, pois era contrário à tradição do Antigo Testamento que eles viviam. O corpo estava orientado para uma fecundidade natural no matrimónio, na procriação dos filhos. Eles foram entendendo gradualmente com o exemplo pessoal de Jesus. O próprio Cristo tinha permanecido célibe por causa do Reino dos céus. Lentamente, foram compreendendo que o celibato por causa do Reino dos céus tem uma fecundidade espiritual e sobrenatural que procede do Espírito Santo.

Particularmente no Ocidente, o valor do sinal do celibato como forma particular de paternidade espiritual tornou-se mais preeminente na teologia do sacerdócio. Tem-se actualmente desenvolvido uma antropologia do sacerdócio para perceber este tipo de continência como contendo em si o dinamismo interior do mistério da redenção do corpo. Esta antropologia está já presente no Evangelho de S. Lucas, quando Jesus ensina: «Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento, mas os que forem julgados dignos do século futuro e da ressurreição dos mortos não se casarão nem serão dadas em casamento. Na verdade, eles jamais poderão morrer, porque são iguais aos anjos e, sendo filhos da ressurreição, são filhos de Deus» (Lc 20, 34-36).

Jesus, vivendo o seu celibato, estava já fazendo do seu corpo um sacramento como uma especial participação no mistério da redenção do corpo. São Paulo, na sua epístola aos Colossenses, falou da sua própria experiência de usar o seu corpo para edificação da comunidade:

«Há bem pouco tempo, vós éreis estrangeiros e inimigos de Deus pelos vossos pensamentos e obras más, mas agora Ele reconciliou-vos pela morte do seu corpo humano, para que vos possais apresentar santos, imaculados, irrepreensíveis aos olhos do Pai. Para isso, é necessário que permaneçais fundados e firmes na fé, inabaláveis na esperança do Evangelho que ouvistes, que foi pregado a toda a criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, fui constituído ministro. Agora alegro-me nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, eu o completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja» (Col 1, 21-24).

Com esta mesma atitude e espírito, o sacerdote célibe pode tornar-se uma «verdadeira doação aos outros» (GS, 22). É um tipo de auto-sacrifício que orienta o sacerdote para a edificação da comunhão das pessoas. Isso supõe uma longa sucessão de auto-sacrifícios, porque a antropologia da pessoa humana consiste, ao mesmo tempo, na herança do pecado e na herança da redenção. Ele orienta-se, por este exercício da liberdade, para uma resposta eucarística a um carisma particular, para a futura ressurreição do corpo.

O sacerdote célibe, fiel à pregação da palavra de Deus, procura construir o Reino de Deus tornando os homens e as mulheres filhos e filhas de Deus mediante o baptismo. Tendo-os conduzido ao seio da Igreja, o sacerdote, como um pai espiritual, procura guiar, como pastor, o rebanho a ele confiado para os bons pastos da Eucaristia. É também da Eucaristia que o matrimónio recebe alimento espiritual. Os pais recebem fortaleza espiritual e sabedoria para a sua missão na Igreja doméstica. É para o sacerdote que a família é atraída em tempos de crise e divisão, para ser reconciliada pela misericórdia de Cristo, administrada no sacramento da reconciliação.

Matrimónio e continência complementam-se mutuamente. Encorajam-se mutuamente na edificação da comunidade das pessoas e de uma civilização do amor. O celibato por causa do Reino dos céus assenta sobre o fundamento do significado esponsal do corpo. O corpo tem um significado esponsal por sua própria natureza. Ele alcança a sua verdadeira realização somente no dom de si. Está orientado para a comunhão das pessoas. Está orientado para Jesus Cristo ressuscitado corporalmente. O amor conjugal perfeito está fundado na fidelidade e na doação a Jesus Cristo, o Esposo perfeito. A orientação do sacerdote célibe para esta especial intimidade com o Esposo complementa e encoraja os esposos no seu sacramento do matrimónio a terem Jesus Cristo no centro. A fecundidade do matrimónio na vocação para a paternidade e para a maternidade recorda constantemente ao sacerdote célibe que o seu amor deve ser também paterno em sentido espiritual. Deve estar aberto à fecundidade do Espírito Santo. Isto dá-se à custa de perder a vida pelos seus «filhos».

Para que esta opção da renúncia do valor do matrimónio e da sua fecundidade em filhos seja plenamente humana (feita conscientemente, livremente e em espírito de acolhimento), o sacerdote célibe necessita de ter um profundo apreço pela beleza do matrimónio. Isto também pressupõe que tenha um profundo apreço pela sua própria masculinidade. É semelhante à primeira pergunta que fazemos ao jovem casal antes de eles trocarem os seus compromissos de matrimónio: Viestes aqui livremente e sem reservas para vos dardes um ao outro em matrimónio?

O Papa João Paulo II observava que esta opção do celibato por causa do Reino dos céus «se dá na base da plena consciência desse significado esponsal que a masculinidade e a feminilidade contêm em si mesmos. Se esta opção se realizasse ‘prescindindo’ artificialmente deste real tesouro de todo o sujeito humano, não corresponderia apropriada e adequadamente ao conteúdo das palavras de Cristo em Mateus 19, 11-12».

Jesus conclui o seu ensinamento sobre o celibato com o convite: «Quem puder compreender, compreenda»; isto é, é necessária uma plena compreensão para uma resposta plenamente humana.

O celibato por causa do Reino ajuda a colocar o homem diante da antropologia mais plena: o homem ressuscitado da morte e no amor; um amor que está aberto à vida.

Prof. Gary Devery

 

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