O sinal do celibato como acolhimento da vontade de Deus

 

A vida sacerdotal no celibato supõe uma renúncia do grande bem do matrimónio. Contudo, não se pode ficar somente no nível da renúncia. Ela é abraçada sobretudo por causa do Reino dos céus. É uma renúncia feita por amor. O carisma especial concedido ao sacerdote pelo Espírito Santo no seu chamamento vocacional informa-o de um particular tipo de amor: um amor paterno espiritual.

O celibato existe por causa do Reino dos céus. Tem uma orientação escatológica. Eleva a vista da humanidade para olhar para além do imediato, para o eterno. No Evangelho de S. Marcos, Jesus responde à questão sobre a ressurreição dos mortos com uma subtil distinção: «Na ressurreição dos mortos, os homens não tomarão mulheres nem as mulheres, maridos» (Mc 12, 25). Neste estado, a pessoa humana experimenta a alegria da plenitude da doação pessoal e da plenitude da comunhão intersubjectiva das pessoas. Isto já está inscrito na nossa carne e há uma particular sensibilidade para isto no espírito humano. A vida sacerdotal no celibato ajuda a sensibilizar e iluminar este aspecto à humanidade, à falta do qual a beleza da pessoa humana perder-se-ia de vista, e homens e mulheres estariam reduzidos a viverem apenas para este mundo.

Esta é uma verdade que não é facilmente aceite. Ela apresentava dificuldades para os judeus do tempo de Jesus e os próprios discípulos achavam que era duro de entender. O celibato seria somente para aqueles que eram fisicamente deficientes ou assim tinham sido feitos pelos homens. O ensinamento de Jesus sobre o corpo é uma nova revelação.

Cristo falou especificamente da continência por causa do Reino dos céus. Ela é escolhida na vida presente – em que a norma é que os homens e as mulheres casem – «para uma singular finalidade sobrenatural», em palavras de João Paulo II.

Mesmo que um sacerdote viva a sua vida em continência perfeita externa, de acordo com o ensinamento da Igreja sobre a sexualidade, se esta continência não é escolhida com esta singular finalidade sobrenatural, ela não entra dentro do âmbito daquilo que Cristo estava a revelar. Ela deve ser escolhida e vivida como uma renúncia com uma particular determinação e esforço espirituais em vista do reino.

O celibato por causa do reino dos céus é um sinal escatológico. Ele convida cada geração da Igreja e do mundo a erguer as suas cabeças, do olhar para o túmulo do homem não redimido, para o significado da vida. Ele põe diante da humanidade – em palavras de João Paulo II – «a virgindade escatológica do homem ressuscitado» .

A importância do celibato por causa do reino dos céus está presente e activa no próprio momento do início da história do Cristanismo: o evento da Anunciação. Duas pessoas jovens, em obediência à bondade da ordem natural criada por Deus, têm a intenção de se casarem. Esta intenção tornou-se já comunitária desde que foi anunciado um compromisso formal. Nesta situação irrompe um evento de Deus. À jovem virgem comprometida, o Arcanjo Gabriel anuncia a boa nova. Ante este desígnio de Deus, que é diferente do que Maria tinha pensado para a sua vida, ela acolhe-o com humildade, simplicidade e alegria. Renuncia ao seu próprio plano, que era bom, o caminho normal do casamento, das relações conjugais com o seu marido, do acolhimento dos filhos como fruto desta união mútua. Ela acolhe o desígnio de Deus sobre ela, que inclui o mistério de uma maternidade virginal.

Acontece o mesmo, mas com alguma diferença, com São José. É do esposo de Maria que podemos aprender a espiritualidade do celibato sacerdotal. O mistério virginal de José corresponde ao de Maria. Ele tem de renunciar ao seu próprio plano e aceitar o plano de Deus para a sua vida. Foi uma crise existencial para José, que é retratada sucintamente no capítulo I do Evangelho de S. Mateus.

A iconografia primitiva compreendeu bem este drama da renúncia e da aceitação de José. Na representação da cena da Natividade, José é muitas vezes colocado a um lado, sentado. Ao centro está o recém-nascido Menino Jesus, com Maria e os pastores. José está em profunda reflexão, muitas vezes com o queixo apoiado numa mão, e com o braço apoiado no joelho. Ele está em crise. Diante dele está um velho barbudo dialogando com ele. É Satanás, que tenta José, dizendo-lhe: «Este não é teu filho». São José ensina-nos que não é suficiente renunciar ao nosso plano por Deus. Nem sequer é suficiente, depois de renunciar ao próprio plano, aceitar o plano de Deus, diferente do nosso. Isto podia ser feito sem liberdade, mais com uma atitude de obrigação servil. Não, a vontade de Deus deve ser acolhida, acolhida com a liberdade de um filho de Deus. Para a resposta ser plenamente humana, o plano de Deus deve ser acolhido com alegria. Há uma dimensão eucarística inscrita na própria natureza do homem. É com alegria que São José vive a sua paternidade espiritual como custódio do Menino Jesus.

Acolhendo esta continência por causa do reino dos céus, José e Maria, como toda a Sagrada Família de Nazaré, experimentam a fecundidade espiritual do celibato. Na história da salvação, esta continência foi a mais perfeita fecundidade do Espírito Santo. O matrimónio de José e Maria, vivido em continência por causa do Reino dos céus, revela o mistério da comunhão das pessoas no matrimónio e o mistério da continência do sacerdote por causa do Reino dos céus.

Ambos, o matrimónio e o celibato sacerdotal, são tesouros da Igreja. O texto do capítulo V de São Paulo na sua carta aos Efésios sobre o casamento põe os fundamentos quer para uma teologia do matrimónio quer para uma teologia do celibato sacerdotal. O próprio Paulo sublinha que está a falar de Cristo e da sua Igreja. 

Prof. Gary Devery

 

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