Perseverar na obediência da cruz para permanecer no Senhorio de Jesus!

 

Repassamos a homilia do Papa Bento XVI  na Solenidade de Cristo Rei do Universo: 

 
 
Senhores Cardeais,
Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Queridos irmãos e irmãs!
 
 
Na Solenidade de Cristo Rei do Universo, temos a alegria de reunir-nos em torno do Altar do Senhor juntamente com os 24 novos cardeais que, ontem, eu agreguei ao Colégio Cardinalício. A esses, antes de tudo, destino a minha cordial saudação, que estendo aos outros Purpurados e a todos os Prelados presentes; da mesma forma às distintas Autoridades, aos Senhores Embaixadores, aos sacerdotes, aos religiosos e a todos os fiéis, vindos de várias partes do mundo para essa feliz circunstância, que se reveste de um forte caráter de universalidade.
 
Muitos de vós deveis ter notado que também o precedente Consistório Público para a criação dos Cardeais, ocorrido em novembro de 2007, foi celebrado na vigília da solenidade de Cristo Rei. Passaram-se três anos e, então, segundo o ciclo litúrgico dominical, a Palavra de Deus vem-nos ao encontro através das mesmas Leituras bíblicas, próprias desta importante festividade. Essa se coloca no último domingo do ano litúrgico e apresenta-nos, ao final do itinerário da fé, o rosto real de Cristo, como o Pantocrator na abside de uma antiga basílica. Essa coincidência convida-nos a meditar profundamente sobre o mistério do Bispo de Roma e sobre aquele, a esse ligado, dos Cardeais, à luz da singular Realeza de Jesus, nosso Senhor.
 
O primeiro serviço do Sucessor de Pedro é aquele da fé. No Novo testamento, Pedro torna-se “pedra” da Igreja enquanto portador do Credo: o “nós” da Igreja inicia com o nome daquele que professou por primeiro a fé em Cristo, inicia com a sua fé; uma fé inicialmente amarga e ainda “demasiado humana”, mas então, depois da Páscoa, madura e capaz de seguir a Cristo até o dom de si; madura no crer que Jesus é verdadeiramente o Rei; que o é exatamente porque permaneceu sobre a Cruz e, daquele modo, deu vida para os pecadores. No Evangelho, vê-se que todos pedem que Jesus desça da cruz. Zombavam dele, mas também é um modo de se desculpar, como quem diz: não é culpa nossa se tu estás aí sobre a cruz; é somente culpa tua, porque, se tu fosses verdadeiramente Filho de Deus, o Rei dos Judeus, tu não estarias aí, mas te salvarias descendo daquele patíbulo infame. Portanto, se permaneces ali, isso significa que tu estás errado e nós temos razão.
 
O drama que se desenrola sob a cruz de Jesus é um drama universal; diz respeito a todos os homens frente a Deus, que se revela por aquilo que é, isto é, Amor. Em Jesus Crucificado, a divindade é desfigurada, despojada de toda a glória visível, mas está presente e real. Somente a fé sabe reconhecê-la: a fé de Maria, que une no seu coração também essa última peça do mosaico da vida de seu Filho; Ela não vê ainda tudo, mas continua a confiar em Deus, repetindo mais uma vez com o próprio abandono “Eis a serva do Senhor” (Lc 1,38). E aí está a fé do bom ladrão: uma fé muito rudimentar, mas suficiente para assegurar-lhe a salvação: “Hoje estarás comigo no paraíso”. Decisivo é aquele “comigo”. Sim, é isso que o salva. Certo, o bom ladrão está sobre a cruz como Jesus, mas, sobretudo, está sobre a cruz com Jesus. E, ao contrário do outro malfeitor, e de todos os outros que o escarnecem, não pede a Jesus que desça da cruz, nem que o faça descer. Diz, ao contrário: “Lembra-te de mim quando entrares no teu reino”. Vê-o na cruz, desfigurado, irreconhecível, mas, no entanto, confia-se a Ele como a um rei, antes, como ao Rei. O bom ladrão crê naquilo que está escrito na tábua sobre a testa de Jesus: “O rei dos Judeus”: crê, e se entrega. Por isto está já, subitamente, no “hoje” de Deus, no paraíso, porque paraíso é isto: estar com Jesus, estar com Deus.
 
Aqui então, queridos Irmãos, emerge claramente a primeira e fundamental mensagem que a Palavra de Deus hoje diz a nós: a mim, Sucessor de Pedro, e a vós, Cardeais. Chama-nos a estar com Jesus, como Maria, e a não lhe pedir que desça da cruz, mas estar ali com Ele. E isso, por ocasião do nosso ministério, devemos fazê-lo não somente por nós mesmos, mas por toda a Igreja, por todo o povo de Deus. Sabemos dos Evangelhos que a cruz foi um ponto crítico da fé de Simão Pedro e dos outros Apóstolos. É claro e não podia ser diferente: eram homens e pensavam “segundo os homens”; não podiam tolerar a ideia de um Messias Crucificado. A “conversão” de Pedro realiza-se plenamente quando renuncia ao desejar “salvar” Jesus e aceita ser salvo por Ele. Renuncia ao desejar salvar Jesus da cruz e aceita ser salvo pela sua cruz. “Eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos” (Lc 22,32), diz o Senhor. O ministério de Pedro consiste todo na sua fé, uma fé que Jesus reconhece prontamente, desde o início, como genuína, como dom do Pai celeste; mas uma fé que deve passar através do escândalo da cruz, para tornar-se autêntica, verdadeiramente “cristã”, para tornar-se “pedra” sobre a qual Jesus possa constituir a sua Igreja. A participação no Senhorio de Cristo verifica-se concretamente somente na partilha com a sua base, com a Cruz. Também o meu ministério, queridos irmãos, e por consequência também o vosso, consiste todo na fé. Jesus pode construir sobre nós a sua Igreja tanto quanto encontra em nós aquela fé verdadeira, pascal, aquela fé que não deseja fazer Jesus descer da Cruz, mas confia-se a Ele sobre a Cruz. Nesse sentido, o lugar autêntico do Vigário de Cristo é a Cruz,
 
É difícil esse ministério, porque não se alinha com o modo de pensar dos homens – àquela lógica natural que permanece sempre ativa também em nós mesmos. Mas isso é e permanece sempre o nosso primeiro serviço, o serviço da fé, que transforma toda a vida: crer que Jesus é Deus, que é Rei exatamente porque chegou até aquele ponto, porque amou-nos até o extremo. E essa realeza paradoxal, devemos testemunhá-la e anunciá-la como fez Ele, o Rei, isto é, seguindo a sua mesma estrada e esforçando-nos por adotar a sua mesma lógica, a lógica da humildade e do serviço, do grão de trigo que morrer para produzir fruto. O Papa e os Cardeais são chamados a serem profundamente unidos antes de tudo nisso: todos juntos, sob a guia do Sucessor de Pedro, devem permanecer no senhorio de Cristo, pensando e operando segundo a lógica da Cruz – e isso não é nunca fácil nem óbvio. Nisso devemos ser compactos, e isso porque o que nos une não é uma ideia, uma estratégia, mas nos une o amor de Cristo e o seu Santo Espírito. A eficácia do nosso serviço à Igreja, a Esposa de Cristo, depende essencialmente disso, da nossa fidelidade à realeza divina do Amor crucificado. Por isso, sobre o anel que vos entreguei, selo do vosso pacto nupcial com a Igreja, está representada a imagem da Crucificação. E, pelo mesmo motivo, a cor do vosso hábito alude ao sangue, símbolo da vida e do amor. O Sangue de Cristo que, segundo uma antiga iconografia, Maria recolhe do lado transpassado do Filho morto sobre a cruz; e que o apóstolo João contempla enquanto flui junto com a água, segundo as Escrituras proféticas.
 
Queridos Irmãos, daqui deriva a nossa sabedoria: sapientia Crucis. Sobre isso refletiu a fundo São Paulo, o primeiro a traçar um orgânico pensamento cristão, centrado exatamente sobre o paradoxo da Cruz (cf. 1Cor 1,18-25; 2,1-8). Na Carta aos Colossenses – da qual a Liturgia hodierna propõe o hino cristológico – a reflexão paulina, fecundada pela graça do Espírito, chega a um nível impressionante de síntese ao expressar uma autêntica concepção cristã de Deus e do mundo, da salvação pessoal e universal; e tudo está centrado em Cristo, Senhor dos corações, da história e do cosmo. “Porque aprouve a Deus fazer habitar nele toda a plenitude e por seu intermédio reconciliar consigo todas as criaturas, por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus” (Col 1,19-20). Isso, queridos Irmãos, somos sempre chamados a anunciar ao mundo: Cristo “imagem do Deus invisível”, Cristo “primogênito de toda a criação” e “daqueles que ressurgiram dos mortos”, porque – como escreve o Apóstolo – “ele tem o primeiro lugar em todas as coisas” (Col 1,15.18). O primado de Pedro e dos seus Sucessores está totalmente ao serviço desse primado de Jesus Cristo, único Senhor; ao serviço do seu Reino, isto é, do seu Senhorio de amor, a fim de que venha e se difunda, renove os homens e as coisas, transforma a terra e faça germinar nessa a paz e a justiça.
 
No interior desse projeto, que transcende a história e, ao mesmo tempo, revela-se e realiza-se nessa, encontra lugar a Igreja, “corpo” do qual Cristo é a “cabeça” (cf. Col 1,18). Na Carta aos Efésios, São Paulo fala explicitamente do senhorio de Cristo e o coloca em relação com a Igreja. Ele formula uma oração de louvor à “grandiosidade do poder de Deus”, que ressuscitou Cristo e constituiu-o Senhor universal, e conclui: “E sujeitou a seus pés todas as coisas, e o constituiu chefe supremo da Igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que enche todas as coisas sob todos os aspectos” (Ef 1,22-23). A mesma palavra “plenitude”, que diz respeito a Cristo, Paulo atribuiu aqui à Igreja, por participação: o corpo, de fato, participa da plenitude da Cabeça. Eis, venerados Irmãos Cardeais – e me dirijo também a todos vós, que com nós compartilhais a graça de sermos cristãos –, eis qual é a nossa alegria: aquela de participar, na Igreja, na plenitude de Cristo através da obediência da Cruz, de “participar da herança dos santos na luz”, de sermos “introduzidos” no reino do Filho de Deus (cf. Col 1,12-13). Por isso nós vivemos em perene ação de graças, e também em meio às provações não diminui a alegria e a paz que Deus nos deixou, como garantia de seu Reino, que está já em meio a nós, que esperamos com fé e esperança, e antecipamos na caridade. Amém.
 
Papa Bento XVI – Festa de Cristo Rei de 2010
 
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